LIBERDADE, PALAVRA E O TRABALHO PSICOLÓGICO
- Miguel Altoé

- 25 de nov. de 2023
- 2 min de leitura
Atualizado: 12 de ago. de 2025

Fazer uma psicoterapia propõe constantemente esbarrar em conceitos como liberdade, saúde e aquilo que define o método. Somos instigados a mergulhar nas águas de nosso próprio existir. A clínica organiza em seu pilar central o contato através da palavra, assim chegamos a noções cruciais que definem o trabalho do psicólogo, como a escuta, a intervenção, a sensibilidade e o acolhimento.
A liberdade mora no simbólico, não naquilo que é experimentado. Esse é um tema central com muitos pacientes. É importante reconhecer que o desejo e o sentir estão fora do controle. Não é possível escolher o que se deve sentir diante de determinada situação ou a atração que tal contexto exerce sobre si, essas são situações que estão em um plano determinado como aquilo que acomete sobre o indivíduo. A luta contra as próprias emoções, sentimentos e desejos muitas vezes é um dos principais fatores que fazem os pacientes sentirem-se culpados e ansiosos. É importante acolher tudo isso, só assim é possível que até a mais desagradável das sensações ou pensamentos encontrem encaminhamento.
Por outro lado, é sim possível escolher como agir, como elaborar e como encaminhar os impulsos que nos ocorrem. A vida deve ser experienciada. Por isso dizemos que a liberdade mora no simbólico. Simbolizar é investir o mundo de significado, é a forma como entramos em contato com os fenômenos que ocorrem e a partir de onde é possível delimitar novas possibilidades de existir. Muitos problemas psicológicos acontecem quando há uma barra entre o simbolizar e o experienciar e o trabalho do psicólogo, então, se faz em operar com essa relação entre a experiência e o simbólico. Aí que encontramos a delicadeza da palavra.
O amor do psicólogo é captar o que está acontecendo em suas diversas camadas e encontrar as palavras que traduzem isso da melhor forma possível. A palavra é a ponte, é o corredor que abre as portas da realidade interna. A partir dela conseguimos integrar experiências e estabelecer novas relações. Por isso a palavra é o principal instrumento da análise e é um trabalho que se torna terapêutico à medida que fomenta um estado de mais autonomia, abertura de mundo e responsabilidade perante a história de vida.
Nesse contexto o psicólogo é um sujeito presença para o outro. É necessário estar aberto para a exposição de mergulhar profundamente em outra vida e preparado para lidar com essa responsabilidade. Martin Buber no livro Eu e Tu diz “É quando me torno eu que digo tu”. Dizer isso em torno da prática do psicólogo é implicar que é preciso estar legitimamente aberto a alteridade. Estar consciente de si mesmo é a única forma de reconhecer o outro como um indivíduo particular e único, separado de si mesmo. Somente através da consciência da alteridade é possível acolher a existência do outro sem preconceitos. Assim, o inverso também pode ser pensado como verdade e afirmar “tu” faz-me tornar “eu”.


