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SOU ANSIOSO OU ESTOU ANSIOSO? COMO LIDAR COM AQUILO QUE PARECE NÃO IR EMBORA.

  • Foto do escritor: Miguel Altoé
    Miguel Altoé
  • 5 de dez. de 2023
  • 2 min de leitura

Atualizado: 12 de ago. de 2025


Certa vez atendia uma paciente que usava categoricamente o ‘sou’ para falar de sua ansiedade. Sempre que referenciava essa experiência dizia “sou muito ansiosa”. Decidi gentilmente provocar uma reflexão sobre esses termos. Afinal, será que você é ansiosa ou está ansiosa?


Essa provocação trouxe nela uma nova configuração de como se perceber. Quando ela compreendeu o ponto que se articulava por esse questionamento foi como se outra forma para referenciar a si mesma também fosse descoberta. Antes estava condenada em sua percepção por algo que imperava sobre ela - se a ansiedade é uma característica da minha essência, o que posso sentir se não isso? Mas se a ansiedade pode ser entendida como um estado possivelmente transitório, aí a possibilidade ressurge e ainda posso vir a conhecer outras formas de sentir.


A diferença entre ‘ser’ e ‘estar’ está enraizada na natureza da existência. ‘Ser’ denota uma característica inerente, uma identidade fundamental e permanente, enquanto ‘estar’ refere-se a um estado temporário ou uma condição circunstancial. Enquanto ‘ser’ se relaciona com a essência e a natureza intrínseca de algo ou alguém, 'estar' expressa uma situação momentânea, variável no tempo e espaço. A distinção entre esses dois verbos fundamentais abre caminho para compreendermos a profundidade da realidade e da experiência humana. Podemos com isso honrar a língua portuguesa que nos fez o favor de inserir palavras diferentes para esses dois estados, coisa que não acontece em tantas outras línguas, que usam a mesma palavra para 'ser' e para 'estar'.


Uma pessoa pode se apegar a um estado de ‘estar’ e elevá-lo à condição de ‘ser’, ou seja, tornar aquilo que é transitório em algo imútavel de sua identidade. Um equívoco que a prende identificada a um estado de sofrimento.  Por isso dizemos que o trabalho da clínica acontece em dois momentos. Um de identificação e outro de desidentificação. É preciso conhecer as estruturas que causam sofrimento, revelar os estados que se tornaram crônicos com o tempo e entrar em um profundo processo de contato com aquilo que nos constitui e nos governa. Assim como chega, também, um momento de abrir mão, experimentar novas possibilidades, deixar com que noções muito fixas sejam questionadas, sem que isso abale a segurança no mundo, mas, pelo contrário, coloque as pessoas confiantes em explorar a abertura para o novo.


Uma expressão comum é a de que um diagnóstico pode trazer alívio para uma pessoa, uma vez que ela se sente de alguma forma compreendida em sua condição e sai de um estado de solidão, já que outras pessoas também passam por isso e podem existir estratégias para lidar com esse tipo de sofrimento. A importância de que isso seja feito com cuidado é que é fundamental que a pessoa não se encerre em um diagnóstico, que não seja vista, pelos outros e por si, somente a partir dessa lente. A diferenciação entre as categorias de ‘ser’ e ‘estar’ entram aí como a garantia do lugar do humano, um que cada um possa dizer da sua própria humanidade e definir o percurso da história que lhe cabe.






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Miguel Altoé 
Psicólogo Clínico e Psicanalista
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