TORTO ARADO E O INDIZÍVEL
- Miguel Altoé

- 21 de nov. de 2023
- 4 min de leitura
Atualizado: 6 de dez. de 2023

Torto Arado é um romance de 2019, escrito pelo autor baiano Itamar Vieira Junior. O livro, rapidamente consagrado entre os clássicos da literatura brasileira, traça sua narrativa a partir da vida de duas irmãs, Bebiana e Belonísia, e seu entorno - a família, a terra, o desejo e a pobreza. A história se passa na Fazenda de Águas Negras, situada em uma região remota da Chapada Diamantina (BA), onde um povo negro trabalha por moradia em um Brasil pós-abolição, mas profundamente escravocrata. É uma obra regional e universal, realista e mágica, inesgotável em possíveis desdobramentos sobre a experiência humana.
O romance foi especialmente escolhido para elaboração mais profunda por oferecer estímulos caros para um aprofundamento do conceito daquilo que é dito e não dito dentro da psicanálise. É preciso recuperar a noção de que algo de nossa experiência é sempre intraduzível, é aquilo de tão extraordinariamente real que é impossível de simbolizar, são situações que são determinadas por um corte.
Nesse sentido, não por acaso a primeira seção da obra recebe o título de “Fio de corte” e introduz o mote pelo qual toda a narrativa se abre, as irmãs encontram uma faca guardada pela avó e em uma brincadeira acabam por se cortar. Uma se fere sem graves consequências, enquanto a outra tem a língua decepada, sendo pelo resto de sua vida entregue ao mutismo. Com Belonísia, a que foi mutilada, a linguagem se desloca da fala, se torna gesto, pensamento, silêncio e grunhidos. Os objetos cortantes são referenciados em toda a extensão do romance: a faca, a língua, o arado, as espadas de São Jorge na capa. Apresenta-se, assim, um caminho inusitado por onde o inconsciente irrompe, se constrói e se revela.
Há contextos de uso da palavra que promovem o retorno daquilo que foi recalcado, esquecido, como, por exemplo, ouvir alguém pronunciar em língua desconhecida ou ouvir a própria voz gravada. Ouvir uma língua desconhecida destitui o som de seu significado, é uma experiência de contato com algo mais cru, talvez mais bruto, como era o som antes de aprendermos a linguagem. A partir do nascimento da palavra, ou seja, a introdução das consoantes ao vocabulário sonoro, o sujeito em devir se extrai do reino exclusivo do som para se expor ao reino do sentido. Aí está a operação do recalcamento originário, o som primordial, que é intraduzível, é esquecido para se adentrar em um mundo de sentido, de significado.
Belonísia perde a língua e, ao menos na dimensão da fala, é condenada a habitar uma zona pré-vocabular. Sua experiência pode nos remete à fala de um bebê, uma vez que, assim como ele, o que é capaz de emitir são continuum sonoros, grunhidos que não conseguem se ligar a qualquer significado. A fala está sempre pairando sobre aquilo que é indizível, que nunca pode ser dito, o que falta palavras para simbolizar, o real em última instância.
Dessa forma, a personagem está condenada a reviver, em sua nova estrutura de voz, o contato constante com os traços que a remetem ao impossível. O que acontece é que ela perde a dimensão de fala que a resguarda justamente dessa angústia. Ela perde a capacidade de dar sentido ao som de sua própria voz e traduzir em palavras aquilo que sente. Sempre que profere qualquer intenção vocal o que recebe é uma experiência de horror, como descrito nesse trecho do livro:
"O som que deixou minha boca era uma aberração, uma desordem, como se no lugar do pedaço perdido da língua tivesse um ovo quente. Era um arado torto, deformado, que penetrava a terra de tal forma a deixá-la infértil, destruída, dilacerada. Tentei outras vezes, sozinha, dizer a mesma palavra, e depois outras, tentar restituir a fala ao meu corpo para ser a Belonísia de antes, mas logo me vi impelida a desistir. Nem mesmo quando o edema se desfez consegui reproduzir uma palavra que pudesse ser entendida por mim mesma. Não iria reproduzir os sons que me provocavam desgosto e repulsa."
É interessante notar como é a partir deste primeiro corte, a ruptura da língua, que o retorno daquilo que foi esquecido pode se configurar em âmbitos diferentes da obra. Este é o mote
pelo qual o trauma vem à tona. Em um nível, o horror daquilo que não pode ser significado ou traduzido aparece na angústia de Belonísia, em outro, o livro vai nos revelando um trauma ainda maior, o de todo um povo. A mudez de Belonísia é o ponto de partida de uma narrativa que traz à tona para o leitor o sofrimento das famílias de Águas Negras e, em um plano maior, desvela a dor de um povo marginalizado, contando as histórias dos reis africanos destituídos, dos navios negreiros, das fazendas de engenho e de uma abolição malfeita. Como diz a própria narradora-personagem em um momento:
"Não me furtava a dizer o que faria muitos correrem, temendo a virulência de uma língua. Eram palavras repetidas por minha voz deformada, estranha, carregada de rancor por muitas coisas, e que só fez crescer ao longo dos anos. Agora, com os maus-tratos de Tobias, elas se tornaram mais vis, eram gritadas por minhas ancestrais, por Donana, por minha mãe, pelas avós que não conheci, e que chegavam a mim para que as repetisse com o horror de meus sons, e assim ganhassem os contornos tristes e inesquecíveis que me manteriam viva."
O artista nos dá acesso ao lugar que não poderia ser visto de outra forma. A poesia e maestria de Torto Arado ocorre em revelar isso a partir da quebra com a fala, da dicotomia entre aquilo que é audível e inaudível, dito e indizível. Assim é que vem à superfície da palavra o que aconteceu e o que ainda pode acontecer.

