VIDA E MORTE EM O SÉTIMO SELO
- Miguel Altoé

- 23 de nov. de 2023
- 4 min de leitura
Atualizado: 6 de dez. de 2023

O sétimo selo (Det sjunde inseglet - no original em sueco) é um filme de 1956, escrito e dirigido por Ingmar Bergman. O filme, reconhecidamente um clássico da história do cinema, é responsável por catapultar a fama do diretor, instituindo estética e temática únicas. Nele, Bergman trata de
questões existenciais fundamentais – a busca por
sentido, a iminência da morte e o imperativo do tempo.
O filme se passa em meados do século 14 com o retorno de um cavaleiro e seu escudeiro a sua terra natal na Suécia após anos em uma Cruzada. É interessante notar essa contextualização - o cavaleiro que lutou a Guerra Santa retorna descontente à procura do Deus que não o responde, mas o que encontra é a morte rondando a terra. A peste, que viria a dizimar um terço da população mundial, está atravessando a Europa e a primeira figura que o personagem encontra às margens do mar é a Morte personificada, com suas vestes pretas e palidez cadavérica. Desafiada pelo cavaleiro, os dois sentam-se em acordo: enquanto durar uma partida de xadrez a morte o poupará, e se a Morte perder, o deixará à vida.
Ocorre-me perguntar o quanto Bergman estava a par da obra de Martin Heidegger. Uma dúvida talvez relevante apenas ao acadêmico. Ao artista esse tipo de enquadramento parece inadequado, são discursos que ganham vida ao se libertarem de referências muito delimitadas. O ponto é que o personagem Antonius Block (o cavaleiro) personifica a angústia de ser-no-mundo perante a morte. A angústia que leva o ser a se reinventar, se mover em direção ao futuro, em busca de realizar-se e construir novos sentidos. Ao se deparar com iminência da morte, Antonius busca adiá-la para que seja capaz de realizar algo que o dê sentido. Um diálogo que o cavaleiro tem ilustra esse ponto:
A. Block – A morte me visitou essa manhã. Estamos jogando xadrez juntos. Este indulto vai me permitir atender a um assunto urgente.
Padre – Que tipo de assunto?
A. Block – Toda minha vida não foi nada além de buscas e questionamentos fúteis. Muita fala sem sentido. Foi tudo em vão. Falo sem amargura ou auto repreensão, sabendo que a vida da maioria dos homens é a mesma. Mas eu quero usar meu indulto para um ato significativo.
Viver e morrer é a história da humanidade. A existência humana se coloca impreterivelmente perante a morte, ser e não-ser formam polos da mesma esfera. Cada época parece constituir de formas diferentes sua relação com esse tema. Na era medieval a morte habitava o imaginário coletivo, como vemos em uma cena do filme, e pinturas com a “dança da morte” não eram incomuns. Do estoicismo ao cristianismo do século 17, a expressão em latim “Memento mori” (Lembre-se que vai morrer) figurava regularmente entre os pensadores.
E é justamente perante essa dualidade que a vida se faz. A morte é experienciada cotidianamente de forma simbólica e o nascimento também. Assim como os dias se refazem na natureza o mesmo tipo de processo nos compele à transformações. A angústia pode ser um sinal de que mudanças são necessárias. Dessa forma, paradoxalmente, o ser consciente da morte é também aquele profundamente engajado com a vida. Compelido pelo tempo a existir e coexistir com o que há no entorno.
Existem discussões sobre nossa sociedade contemporânea evitar lidar com a angústia da evidência da morte. Os projetos neoliberais e digitais parecem fundar estratégias de desvios fugazes para a angústia. A medicina se desenvolve na promessa de que a humanidade alcance idades inimagináveis e os procedimentos estéticos tomam conta de gerações que preferem mascarar seu envelhecimento. E nas redes sociais, hiper informações e compartilhamentos instantâneos podem criar, dentre várias consequências, uma avalanche de distrações. Obviamente não pretendo encerrar as características da contemporaneidade com esse breve apontamento crítico, são relações que carecem de análise cuidadosa e reconhecimento das ambivalências inerentes a toda era.
O personagem do filme chega a Europa assolada pela Peste Negra e, ao nos deparar com a realidade pandêmica de outrora, é inevitável que surjam reflexões sobre o mundo contemporâneo, recentemente atravessado pela pandemia de Covid-19. Em 2020 diversas figuras públicas se pronunciaram contra o perigo do vírus, que já havia deixado seu rastro mortífero por outros países e viria a instalar-se catastroficamente pelo país. Vários movimentos negaram as consequências da pandemia, grupos invadiram hospitais para tentar desvelar uma possível farsa e, mesmo hoje, com mais de 700 mil mortes pela doença no país, há quem negue os efeitos do que passou. Em uma leitura pessoal me parece que este é um movimento de negação da morte. Para esses grupos, o mundo continua como se nada acontecesse, pois a presença da morte é insuportável. A angústia que é capaz de desabar um mundo para que se funde outro não é bem-vinda, pois para isso é preciso entrega e responsabilidade com o desconhecido que o tempo traz. É preciso ação e reinvenção.
A reivenção é um renascimento. Recolhe os planos e tropeça em uma catarse. A fadiga do suor interior é capaz de deitar alguém na cama e fazer com que, a partir da cabeça vagarosamente suspensa, repare os tacos do chão. Repara-se em formas que nunca haviam recebido atenção em detalhe – as folhas atrás da janela; novas inseguranças; as variações de cor na parede; antigos desejos.
Em um mundo incerto frestas de luz podem ser exploradas: os sons de Gilberto Gil, novas formas de contato ou presentes embrulhados em poesia atravessam qualquer distanciamento. Quando a Morte pergunta para o cavaleiro como ele sabe que ela joga xadrez, vem a resposta: “vi nos quadros e escutei nas baladas”. A arte se interpõe perante o mistério e comunica aquilo que não pode ser dito, revelando um mundo em constante movimento.
Finalizo, então, este ensaio com um trecho de um poema importante para mim:
“A luz irrompe em lugares estranhos,
nos espinhos do pensamento onde o seu aroma paira sob a chuva;
quando a lógica morre, o segredo da terra cresce em cada olhar
e o sangue precipita-se no sol;
sobre os campos mais desolados, detém-se o amanhecer.”
Dylan Thomas

